Vocação Moderna da Contabilidade

Prof.Dr. Antônio Lopes de Sá

por Prof. Antônio Lopes de Sá – 02/04/1999

Amplia-se, a cada momento, a cada passo em frente que os meios de comunicação realizam, a necessidade de transformações de conceitos e de práticas no campo da informação sobre a riqueza.

A velocidade com que as decisões devem ser processadas mudou a atmosfera administrativa de nossos dias e a Contabilidade, como fonte de orientação de modelos de comportamento dos capitais, vem acompanhando essa evolução.

Isto, todavia, não só exige repensar os critérios informativos, mas, especialmente, considerar como tais sistemas se enquadram dentro das exigências doutrinárias científicas, sob pena de estabelecer-se o caos.

NOVAS NECESSIDADES E MERCADO DE MAIOR

Se compararmos os procedimentos de apenas 10 anos atras, com os que hoje são exigidos de um empresário, seja ele de pequena ou grande empresa, veremos que não mais são aceitáveis, como eficazes, os conceitos que anteriormente eram os predominantes .

O aumento da resultou no aumento da necessidade de comparecer a um mercado em ebulição, adotando-se estratégias especificas .

Atendida essa forte exigência, as demais passaram a ser decorrências naturais da mesma .

A , fortaleceu-se com a abertura de mercados, mas, de forma mais relevante, em defluência da maior acessibilidade dos meios de comunicação, especialmente aqueles de natureza eletrônica (fax, Internet etc.) .

A necessidade empresarial passou a ser mais vizinha da necessidade de seus compradores .

Isto envolveu não só a apresentação de produtos de melhor qualidade, como, especialmente, de serviços de maior eficácia .

A mensuração desses fenômenos que atingem a riqueza, passou a ser preocupação dos estudos da Contabilidade e das tarefas práticas do contabilista .

As facilidades de compra e venda, sem que o cliente ou o fornecedor se desloquem, o mesmo ocorrendo com a prestação de serviços, alteraram o modo de observar os fenômenos decorrentes dessa relação pessoal que imprime modificações peculiares na riqueza, assim como na forma de gerir e analisar a mesma .

AMPLIAÇÃO DA VISÃO CONTÁBIL : PARADOXO METODOLOGICO

A visão exclusivamente “legal” dos informes e até dos estudos de Contabilidade, tornou-se pequena diante das profundas modificações ocorridas nas últimas décadas do século XX .

A ótica apenas de “relações de direitos e obrigações”, já rompida pelos doutrinadores do “materialismo”, quer na Itália, quer na França, quer na Alemanha e também em Portugal e no Brasil , já ocorria, com intensidade, no início do século XX (ver detalhes sobre a matéria em meu livro Historia Geral e das Doutrinas da Contabilidade, edição Atlas, de São Paulo e VISLIS, de Lisboa) .

As reformas doutrinárias operadas com as correntes dos pensadores do Reditualismo, Aziendalismo e Patrimonialismo, já exigiam observações bem além dos limites da simples “legalidade” dos atos da riqueza .

Nos fins da década de 70, do século XX, os autores mais preocupados com a literatura científica da Contabilidade, acenavam para mudanças de maior porte .

Com a minha Teoria das Funções Sistemáticas que gerou a Teoria Geral do conhecimento contábil (ver sobre a mesma meu livro com este titulo editado em Belo Horizonte pelo IPAT-UNA e em Madri pelo ICAC do Ministério de Economia e Fazenda, da Espanha e minha página na Internet www.lopesdesa.com ) , todavia, originou-se a corrente Neopatrimonialista que daria reforço a todo um movimento moderno, com uma visão holística .

A integral que Kaplan e Norton apregoaram há poucos anos, nos Estados Unidos, como forma de integração entre Contabilidade e , já havia sido preconizada por autores italianos como Besta, Ceccherelli, Zappa, Masi, Onida e outros desde o inicio do século XX.

Partindo do mesmo norte, também elaborei, sob angulo estritamente patrimonial, a minha Teoria do Conhecimento Contábil, a partir 1978 (expondo-a, por primeira vez, em Seminário específico, na Universidade de Sevilha, Espanha, em 1987) .

Minha teoria preocupou-se em dar um corpo de doutrina à Contabilidade e que Mattessich sempre me reclamou, pessoalmente, em correspondências diversas .

O que diferencia meu estudo dos outros, como Kaplan e Norton, é exatamente o teor cientifico que emprestei, buscando generalidades e enunciando teoremas competentes para serem válidos em todas as partes e em todos os tempos (só entendo ciência com universalidade) .

No fundo, estamos todos de acordo , de que a Contabilidade é que deve cuidar dos fatos relativos aos comportamentos internos e externos da riqueza, nessa relação <célula social/sociedade como um todo> .

Não é mais aceitável a ótica apenas enclausurada da riqueza aziendal como se ela estivesse fora de um mundo que, realmente, a encerra .

A vocação contábil moderna é pois a de considerar a riqueza como

  1. essência,
  2. em suas dimensões internas na célula social,
  3. em suas relações ambientais endógenas e exógenas, como parte de um mundo ecológico, social, político, cientifico, legal, econômico etc.

Abranger, pois, todas essas classes de valores é, portanto, um novo caminho que sendo já percebido, de há muito, só agora ganha maior credibilidade perante os próprios utentes da Contabilidade .

A aceitação dessa realidade implica em libertar os estudos da Contabilidade das dependências predominantes das áreas do Direito , Finanças, Economia e , para buscar uma autonomia legítima .

Curioso poderá parecer, mas, tal autonomia a que me refiro não significa o abandono desses vínculos ; muito ao contrario, o que se pretende é mostrar que nenhum desses conhecimentos é tão relevante que possa anular o outro e nem tão envolvente que dispense o concurso de outras ciências, antes distantes, e que devem agora estar mais vizinhas de nossos objetivos (como a Sociologia, Psicologia etc.) .

Pode parecer paradoxal o libertar-se vinculando, mas, é uma realidade; aquela que nossos doutrinadores modernos estão a reclamar, cada um com seu aspecto, mas, todos, com o mesmo objetivo .

O paradoxo metodológico, no caso, é aceitável e benéfico, pois, aos contabilistas cabe, na atualidade, a tarefa de medir fatos antes percebidos, mas, não disciplinados dentro de nossas teorias e tecnologias .

OBJETOS BÁSICOS DE OBSERVAÇÃO NOS ESTUDOS CONTEMPORÂNEOS

A observação, mensuração, informação, estudo e explicação dos fenômenos da riqueza patrimonial, das células sociais, hoje, abrange os aspectos de causa e de efeito, qualitativo e quantitativo, de tempo e espaço, das necessidades e eficácias integrais e integradas, dos seguintes elementos :

  1. Produtores dos resultados da célula social (resultabilidade) , neles incluídos o custo, o produto, serviço ou mercadoria, a distribuição e a assistência ao cliente (comportamentos internos e externos); a receita, o lucro e o exame do comportamento do concorrente no mercado no que tange a qualidade, preços e para o consumo e o grau de satisfação do cliente ;
  2. Promotores da circulação financeira e da liquidez pertinente (comportamentos internos e externos);
  3. Componentes do equilíbrio da riqueza em face do que é e do que não é eminentemente financeiro (material e imaterial) (estabilidade) ; recuperação, manutenção e reintegração da força operacional ;
  4. Sustentadores da vitalidade e sobrevivência inclusive de aumento de força intelectual, de pesquisa, de trabalho executivo(economicidade) ;
  5. Eliminadores de riscos (invulnerabilidade) quer internos quer externos;
  6. Promotores humanos (pessoal) e impessoais (riqueza) da eliminação de desperdícios e promotores de eficiência no uso da riqueza e no comparecimento perante o mercado (produtividade) ;
  7. Motivadores da dilatação da empresa ou da contração de acordo com os fatores internos e externos (elasticidade) .

Planos de Contas de natureza apenas financeira (como os fundamentados em liquidez apenas) já não são mais satisfatórios

Tais aspectos são os principais que minha teoria apresenta, em seus sete sistemas de funções da riqueza das células sociais .

A questão, portanto, não é apenas financeira e esta a razão pela qual os Planos de Contas de natureza apenas financeira (como os fundamentados em liquidez apenas) já não são mais satisfatórios .

Não basta informar que algo é circulante ou não, que vence a curto ou longo prazo, sendo necessário evidenciar outros aspectos tão ou talvez até mais importantes dos que têm sido objetos de demonstrações .

O aspecto financeiro é apenas um dos aspectos que se necessita conhecer, assim como o é aquele legal, mas, ambos, estão longe de serem os exclusivos e de possuírem capacidade para espelhar a realidade sobre a riqueza patrimonial aziendal .

A visão integrada e integral de todos os fenômenos, diretos e indiretos que atingem a riqueza patrimonial da célula social é, sem dúvida, objeto dos estudos da Contabilidade e isto exige uma análise sistemática e abrangente (é a isto que visa, sob o aspecto científico, a minha teoria) .

Para que se tenha a evidência de todos os elementos necessários para a tomada de decisões e para orientar terceiros que se utilizam dos dados contábeis não basta levantar um quadro ou arquitetar um modelo .

Quadros e modelos são apenas evidencias empíricas se não estão sustentados por teoremas .

A minha doutrina do Neopatrimonialismo difere, pois, de muitos outros estudos, exatamente nesse particular, pois, estriba-se em proposições lógicas e infralógicas (teoremas), competentes para sustentarem uma teoria científica .

ASSOCIAÇÃO CULTURAL CIENTÍFICA NA MODERNA CONTABILIDADE

A visão Neopatrimonialista exige associação cultural, como já foi exposto .

Medir o comportamento humano, quer internamente na empresa, quer aquele relativo a clientes (externamente), quer ao consumidor em geral, quer o de perspectivas de imagens na sociedade etc. exige o conhecimento de outras ciências e a adaptação do que elas oferecem como subsídio aos interesses da Contabilidade .

A Psicologia pode subsidiar para que possa estudar e entender fenômenos que ocorreram com a riqueza

O que o contabilista visa não é conhecer Psicologia, por exemplo, para praticar a profissão de psicólogo, mas, sim, usar o que ela pode subsidiar para que possa estudar e entender fenômenos que ocorreram com a riqueza, em razão de efeitos emocionais, de comportamento humano .

Assim, os investimentos em pessoal, para educação, para , para valorização de imagens etc. são fenômenos que envolvem seres humanos mas que possuem efeitos nas riquezas .

Uma analise integrada exige o conhecimento tanto, por exemplo, de psicotécnica, de psicologia, como de Contabilidade .

O fato de se informar sobre as aplicações de capital em pessoal e os efeitos dela resultantes, em estudo específico sobre esse objetivo, não significa transmudar a função contábil e nem se ter a pretensão de que ela substitua a de um pedagogo ou psicólogo .

O que não se deve, em nossos estudos, é perder a qualidade da metodologia, ou seja, uma coisa é o método do psicólogo ao analisar o fenômeno do cérebro humano e outra o do contabilista ao estudar a mesma questão, mas, sob a ótica do que representa para o presente e para o da célula social .

Na sociologia, por exemplo, deve-se buscar conhecer o fenômeno das revoluções, mas, jamais para utilizar-se delas como instrumento ou estudo específico, mas, sim, para conhecer a realidade dos efeitos sobre o patrimônio, sobre os custos, sobre as perdas .

O mesmo ocorre em relação a outros fenômenos estudados por diversos outros ramos do conhecimento .

Todas as ciências se utilizam umas das outras mas, isto, não representa nem subordinação e nem anulação de qualquer ramo .

Todas as ciências se utilizam umas das outras mas, isto, não representa nem subordinação e nem anulação de qualquer ramo .

Há uma inequívoca interdependência cultural, mas, também, uma útil autonomia de cada conhecimento, pois, sem esta não se pode traçar uma eficiente metodologia .

AGILIDADE DOS MERCADOS E CONTÁBIL

Tão ágil se tornaram os acontecimentos com o advento das novas formas de comunicação que necessário se fez, também, decidir rapidamente .

Ninguém pode logicamente agir no tempo ainda não incorrido, mas, pode decidir baseado em ou imagem de um .

Uma ciência deve ter como atributo a capacidade de prever (essa é uma das condições para que o conhecimento seja científico) .

A Contabilidade, como ciência, pode e deve oferecer meios de previsão (ver sobre a natureza científica da Contabilidade minha obra Teoria da Contabilidade, edição Atlas, São Paulo) ; se não pudesse faltar-lhe-ia um requisito para enquadrar-se como conhecimento racional e universal .

A necessidade de projetar dados para uma visão do é, na atualidade, condição essencial para que uma empresa possa sobreviver

A necessidade de projetar dados para uma visão do futuro é, na atualidade, condição essencial para que uma empresa possa sobreviver sem problemas, em um mercado ágil, assim como para sustentar investimentos em especulações de bolsas, adquirir novos negócios, ampliar atividades etc.

Esta a razão pela qual, no momento atual, cresce a necessidade de prever .

Isto, todavia, necessita de apoio em modelos de comportamentos que sejam competentes para estabelecer imagens confiáveis sobre a transformação das riquezas celulares das sociedades .

O aspecto “tempo”, dos fenômenos patrimoniais, não se pode dissociar, todavia, das demais dimensões e que são as de causa, efeito, espaço, qualidade e quantidade, tal como estabelece a minha Teoria .

A questão não está em apenas antecipar imagens de ocorrências, mas, obtê-las de forma confiável .

Ajuda a prática, o estudo teórico dos teoremas que dissertam, em proposições, sobre as relações de essências, dimensões e ambientes em que a riqueza patrimonial se transforma .

A tendência moderna da Contabilidade, pois, quer seja em ensaios de natureza pragmática apenas, quer em desenvolvimentos de teorias científicas, sinaliza para o vocacionar-se no sentido do holístico e do prospectivo, da interação e integração científica, evidenciando todo o grande potencial que a nossa disciplina possui .

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