Escritório de contabilidade é um excelente negócio ou a grama do vizinho é mais verde?

por Roberto Dias Duarte

Dizem que a grama do vizinho é mais verde que a nossa e esse ditado popular explica um comportamento que vem se tornando frequente no mercado de serviços contábeis brasileiro. Não é novidade que há uma em andamento neste ramo. Justamente por isso há, também, um mar de oportunidades para o setor. Claro, existem pontos de atenção.

Este mercado fatura R$ 646 bilhões de dólares em todo mundo, sendo que 87% deste valor tem origem em receitas de serviços nivel 1: “tax compliance”, ou conformidade tributária, onde o prestador de serviços entrega para seus clientes cálculo de impostos e cumprimento de obrigações. O problema é que serviços de “tax compliance” já estão em “oceano vermelho” – um mar onde muitos peixes disputam pouco alimento – o que gera uma de preços.

O melhor caminho para os empresários da contabilidade se diferenciarem neste oceano vermelho é ofertar serviços nível 2, entregando soluções de consultoria para melhoria do desempenho dos seus clientes. Esta de posicionamento coloca o prestador de serviços em um “oceano azul” de oportunidades, ou seja, desbravar espaços inexplorados do mercado, mergulhando em e “não ligando” para .

No futuro próximo, será inevitável que se busque o nível 3: o aconselhamento estratégico que busca ajudar os clientes com os desafios de longo prazo entregando serviços de estratégico, sucessório, fusões, e aquisições.

E a grama do vizinho?

Há muita gente boa, bem-intencionada, que está sendo engolida por essa de perfil na prestação de serviços de contabilidade. Isso se reflete no movimento desses profissionais em busca de alternativas empresariais ou de carreira. Na prática, está muito comum ver pessoas abandonando seus empreendimentos em busca de “gramas mais verdes”. Muitos buscam oportunidades de atuação como coach ou , outros tantos criam startups tecnológicas.

O digital é algo sensacional. Instigante e (aparentemente) tem mais “status” social que as atividades consideradas tradicionais.

A dura realidade do mercado digital é que 6 em cada 10 startups não conseguem se manter “de pé”. E, as que conseguem equilíbrio financeiro têm desafios tão grandes como qualquer outro negócio.

A grama verde da contabilidade

Que tal analisar o mercado de serviços contábeis na perspectiva de um investidor? Foi exatamente esse ponto de vista abordado em uma das melhores palestras que assisti na “Accounting and Finance Show”, em Nova Iorque no mês de julho deste ano.

Garrett Wagner, CPA (Certified Public Accountant), explicou como utilizar as estratégias de uma em um escritório de contabilidade. Para medir o de uma , utilizamos indicadores de resultado específicos. Há três que destaco: Life Time (LT), margem operacional e receita média por cliente (popularmente conhecido como ticket médio). Estes números produzem o Life Time Value (LTV) que representa o valor que o cliente deixa na empresa ao longo do seu ciclo de vida.

Entenda melhor estes números

Churn = Clientes que cancelaram em determinado período / Quantidade de clientes no início do período

Tempo Médio de Vida (LT) = 1 / Churn

LTV = (Ticket Médio Mensal x Margem Bruta x tempo Médio de Vida) (em valor presente, ou seja, descontando a taxa de juros de mercado)

Dificilmente você encontrará uma que tenha o LT maior que o de um escritório de contabilidade. Eu analiso este número em todas as mentorias que realizo e menor que encontrei em um escritório brasileiro foi de 8 anos. O maior, chegou a 20!

A margem operacional de um escritório de contabilidade também é bem relevante. Nos casos que já avaliei,  variam entre 30% e 60%. Estes indicadores objetivos nos levam à conclusão que o escritório de contabilidade é um dos melhores negócios do mundo! Os números gritam!

Acredite, se você começar a pensar no seu empreendimento como um CEO (Chief of Executive Office) de uma startup, você poderá conquistar resultados extraordinários.

Eu trabalho muito, mas não vejo futuro 🙁

Se isto é o que está ocorrendo, talvez seja a hora de mudar a forma de trabalhar. Dificilmente você conseguirá resultados fantásticos sem delegar as atividades técnicas para sua equipe. Também não será com a mentalidade de consultor que sua empresa irá “bombar”.

Um CEO pensa e age além de suas competências técnicas. Para isso, Garrett Wagner explica três pontos cruciais para direcionar suas ações:

1. por valor

Imagine que eu “gastei” uma hora para escavar, em uma mina, e obtive uma pedra de carvão. Trabalhei também uma hora para extrair uma pedra de diamantes. Se eu utilizar a fórmula preço = custo hora x markup, o diamante e o carvão serão vendidos pelo mesmo preço.

Porém o que é mais valioso?

A resposta é: depende! Se o comprador estiver em uma região fria, sem outra fonte de energia, o carvão terá mais valor para ele que o diamante!

A conclusão óbvia é que quem determina o preço é o mercado que você escolheu para trabalhar, por isso, a segmentação é um fator decisivo para formação de valor do seu serviço contábil.

2. Habilidades empreendedoras

Este é outro ponto que confunde muitos profissionais do setor. Fala-se muito na transformação do em consultor. Mas isto é insuficiente. As habilidades para ter uma empresa de estão muito além do domínio de técnicas de consultoria.

Liderança, relacionamento com o mercado, de colaboradores, visão de futuro, técnicas de , , da qualidade e . Tudo isso é importante.

Quanto tempo você estudou para aprender as técnicas contábeis? Você acredita mesmo que irá aprender consultivas assistido um vídeo de 30 minutos? Ou que será um guru do com um de 2 horas? Ou mesmo que se tornará um líder inspirador com um de final de semana? É preciso muito empenho para desenvolver com maestria novas habilidades.

3.

Cliente com formação acadêmica costuma comprar mais e custa menos. No Brasil apenas 6,4% dos empreendedores completaram o superior. Então, se você espera que o cliente perfeito bata à sua porta procurando soluções consultivas de alto valor, você terá que esperar sentado.

O objetivo do é instruir os clientes (e futuros clientes) criando uma relação de confiança e autoridade. Então, quanto mais conteúdo você fizer, mais oportunidades terá. Além disto, ao fechar o contrato, este cliente que passou pela sua “ jornada educadora” estará mais preparado para consumir seus serviços. Ou seja, custará menos para atendê-lo.

As estratégias de e dependem diretamente do público alvo escolhido. Quanto maior o valor do serviço que você pretende vender, maior a necessidade de relacionamento humanizado e personalizado. Já para serviços de baixo valor as estratégias digitais são muito eficientes.

Na prática, utilizar vídeos, redes sociais, palestras ou visitas individuais depende do segmento de mercado que você escolheu para trabalhar.

Enfim, produza conteúdos educativos para seus clientes e torne-se uma autoridade nas soluções importantes para o negócio dele. Mas, cuidado!

Produzir conteúdo e conquistar “likes” dos colegas de profissão é algo conhecido como “vanity metric”, ou seja, medidas que inflam sua vaidade e esvaziam seu caixa.

Fim de papo

Para concluir, recomendo que você concentre seus esforços no sentido de automatizar ao máximo suas atividades de “tax compliance” e foque em soluções que irão melhorar o desempenho dos seus clientes.

Com isso você poderá ampliar sua base de clientes e aumentar seu ticket médio, simultaneamente. Isso tornará o Life Time Value dos seus clientes maior E consequentemente sua empresa terá resultados extraordinários.

Para isso, pense e aja como o CEO do seu escritório!

Qual sua opinião sobre isso?

5 thoughts on “Escritório de contabilidade é um excelente negócio ou a grama do vizinho é mais verde?”

  1. Muito boa a sua visão!!!
    Entendo que as obrigações fiscais exigem cada vez mais tempo do contabilista. Dedicar tempo para a consultoria contábil é um desafio.
    Entendo que, parametrizações fiscais bem feitas poupam tempo em importações e correções.
    Entendo ser inevitável o conhecimento do contabilista em Data Sciency, BI-Business Intelligence com foco em automatizar conferências fiscais e também automatizar análises gerenciais para fornecer insights aos clientes de forma mais objetiva e otimizada.
    Estou estudando muito sobre isso. Já aplico BI a auditoria fiscal e gerencial a pelo menos 5 anos e vejo o quanto isso ajuda em produtividade.
    Estou preparando um material sobre isso.

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