Longevidade de empresa contábil vai depender de nova atitude

Obteve grande repercussão nos meios contábeis norte-americanos artigo recém-publicado por dois conhecidos estudiosos do setor e empreendedores, Alan Anderson e Dustin Hostetler.

Eles se valeram da experiência acumulada na área para desenhar como devem agir as empresas de contabilidade que não pretendam entrar, desde já, em rota de extinção.

O primeiro ponto abordado pela dupla é a necessidade de todos os integrantes da organização atuarem com visão e objetivos comuns, mesmo que cada qual mantenha-se prioritariamente focado no seu papel específico.

Usando imagens como a capacidade de uma dupla de cavalos ter triplicada sua força quando atrelados na mesma carroça, Anderson e Hosteler advertem que na contabilidade não se age dessa forma atualmente.

Embora já se reconheça na área a importância de ir além das relações meramente transacionais no dia a dia da direção com colaboradores e clientes, ainda deixa muito a desejar a sinergia neste âmbito.

Como exemplo gritante disso eles apontam os verdadeiros feudos estabelecidos dentro de casa, com destaque entre os departamentos fiscais e de auditoria, que hoje raramente compartilham informações, muito menos metas. A falta de sintonia é tal que chega a ser comum funcionários que transitem entre as duas áreas passarem a ver como inimiga a que eles próprios ocuparam até pouco tempo atrás. 

E vão além, ao definir como “experiência esquizofrênica”, na maior parte dos casos, as interações mantidas entre auditorias externas e empresas contábeis.

Apenas commodities

Com este pano de fundo no ambiente interno, e pressionados cada vez mais por clientes cujas expectativas e necessidades nunca mudaram tão rápido, os analistas norte-americanos acreditam que as empresas de contabilidade limitadas à oferta de assessoria tributária e auditoria financeira devem enveredar naquilo que definem como “corrida para o fundo do poço”.

Embora não devam desaparecer, os serviços de conformidade tendem a se transformar em verdadeiras commodities, cabendo à contabilidade assumir em plenitude seu papel estratégico.

Sem este viés, as margens de lucro vão cair, e não apenas pelo pouco valor agregado, mas também em virtude da proliferação de recursos informatizados que substituem em boa medida a demanda pelo trabalho humano de caráter menos intelectual.

Tecnologia subutilizada

O notável avanço da informática na área contábil deveria liberar as equipes dos escritórios de contabilidade para aprofundar o exame das informações recebida dos seus clientes. “Olhar debaixo de cada pedra”, comparam os estudiosos.

Assim, seriam capazes de oferecer ideias de alto valor agregado para essas empresas melhorarem continuamente seus resultados.

Contudo, isto não tem ocorrido, pois no entender de Alan e Duster, a maioria das empresas prefere utilizar a tecnologia para replicar o que já era feito em papel, ao invés de utilizar o acervo de conhecimento agora disponível para identificar problemas e tendências difíceis de se enxergar “a olho nu”.

Serviços adicionais

Naquilo que chama de “nível consultivo de base”, a dupla prevê a realização cada vez mais frequente de reuniões de trabalho com os clientes, antes e depois da declaração de impostos, ou da realização de auditoria.

Só assim eles acreditam ser possível acertar o passo, no tocante a planejamento e estratégia, no começo de um exercício e seguir dentro dessa linha até o final.

Em complementação, defendem a prestação regular de serviços como:

– Métricas e análises de dados;

– Monitoramento de Indicador-Chave de desempenho (), com painel customizado;

– Planejamento de sucessão;

– Suporte a M&A, incluindo avaliação de negócios;

– Cibersegurança e TI.

O atendimento básico, isto é, dentro do até aqui esperado de um escritório de contabilidade convencional, naturalmente também pode acabar criando uma experiência melhor, não só para os clientes, mas também junto aos seus colaboradores e parceiros.

É que, ao se esforçar para colocar em prática sua faceta consultiva inata, as empresas tendem a trabalhar em sintonia nos campos fiscal e de auditoria, compartilhando muito mais know-how e tecnologia.

Mudanças

Com esta nova postura, ao invés de replicar o mundo em papel, via preenchimento repetitivo de infindáveis listas de checagem e formulários, os escritórios de contabilidade que buscarem longevidade, e com boa saúde, terão de usar a tecnologia de forma inovadora e revolucionar métodos de trabalho, com ênfase sempre na eficácia e rapidez.

O enfoque comercial dos escritórios igualmente tende a mudar, pois prestando consultoria de alto valor agregado, deve ser mais interessante atender menos clientes, porém aqueles seletos que realmente valorizem seu novo perfil.

Retenção 

Pode-se presumir ainda que se tornará mais trabalhoso o processo de prospectar novos clientes, pois terão de ser tão especiais quanto sua contabilidade.

Ao mesmo tempo, contudo, a duração desses contratos deve aumentar, assim como a retenção de talentos, pois quem é bom de fato normalmente rejeita locais de trabalho medíocres, pois também almeja ir além e fazer a diferença.

Por isso não basta a esse tipo de profissional pensar só no presente, mas sim manter uma visão de futuro que lhe permita levantar da cama, todas as manhãs, motivado com a oportunidade de realizar alguma coisa que realmente tenha significado para alguém.

Conclusão

Permanecer viável num mundo como o de hoje, marcado por rápidas e profundas transformações, requer que praticamente todas as atividades se reinventem.

Muitos dos que desdenharam dos taxistas, quando os aplicativos para transporte de passageiros chegaram, já tiveram ou terão em breve bons motivos para colocar no semblante um certo ar de preocupação quanto ao seu futuro.

O segmento de serviços contábeis não haveria de permanecer imune a isto.

Mas as empresas da área talvez estejam entre as que reúnem melhores condições de se sair muito bem nessa gigantesca lição de casa.

Como dito várias vezes neste artigo, o caminho começa por virar a chave, rumo ao surgimento de escritórios com perspectiva de longo prazo em suas ações cotidianas, integrando de verdade suas diferentes áreas desde já, a fim de que trabalhem de uma forma nada semelhante à que permitiu a formação e sobrevivência de verdadeiros feudos.

Paralelamente, TI e IA devem assumir o lado operacional do dia a dia, sobretudo o da conformidade, deixando a inteligência humana para aquilo em que ela, realmente, é capaz de virar qualquer jogo.

  

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