Métodos de valuation de um escritório de contabilidade

"O valor de um negócio não é medido pelo que foi investido nele, mas pelo que pode ser retirado dele." Benjamin Graham

“O valor de um negócio não é medido pelo que foi investido nele, mas pelo que pode ser retirado dele.”

Benjamin Graham

Os métodos de avaliação de empresas (valuation) são ferramentas essenciais para analisar o valor de uma empresa em uma operação de fusões e aquisições (M&A). No setor de serviços profissionais, a avaliação pode ser um pouco diferente dos setores industriais ou de varejo, por exemplo, já que muitas vezes o principal ativo é o conhecimento e a experiência dos profissionais envolvidos, e não ativos físicos tangíveis. 

Três principais métodos de valuation de escritórios de contabilidade

Para avaliar escritórios de contabilidade, os três principais métodos de valuation – DFC (Fluxo de Caixa Descontado), múltiplos de EBITDA e múltiplos de MRR (Receita Recorrente Mensal) – são frequentemente utilizados devido às características específicas desse tipo de negócio. Vejamos por quê:

1. DFC (Fluxo de Caixa Descontado): O método DFC é um método de valuation fundamental que considera a capacidade da empresa de gerar fluxo de caixa no futuro. Escritórios de contabilidade geralmente têm um fluxo de caixa previsível devido à natureza recorrente dos seus serviços (por exemplo, preparação de impostos anuais, folha de pagamento mensal, etc.). Portanto, a DFC é frequentemente um bom método para avaliar esses tipos de negócios.

2. Múltiplos de EBITDA: O método dos múltiplos de EBITDA é uma técnica de valuation relativa que compara a empresa com outras empresas similares no mercado. Escritórios de contabilidade, assim como outras empresas de serviços profissionais, geralmente não têm muitos ativos físicos, mas geram um EBITDA (Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) significativo. Portanto, o EBITDA é uma medida útil para avaliar o desempenho dessas empresas.

3. Múltiplos de MRR (Receita Recorrente Mensal): Escritórios de contabilidade geralmente operam com um modelo de receita recorrente, cobrando seus clientes por serviços em uma base mensal ou anual. Portanto, o método de múltiplos de MRR, que é comumente usado para empresas com um fluxo de receita recorrente, pode ser aplicado para avaliar escritórios de contabilidade.

É importante ressaltar que, embora esses sejam os três principais métodos de valuation, a escolha do método mais apropriado depende de várias considerações, incluindo o objetivo da avaliação, a disponibilidade de informações, as características específicas do escritório de contabilidade e as condições de mercado no momento da avaliação.

Fluxo de Caixa Descontado

O método do Fluxo de Caixa Descontado (DCF – Discounted Cash Flow) é uma técnica de avaliação de empresas ou projetos baseada na ideia de que o valor de um negócio está intrinsecamente relacionado à sua capacidade de gerar fluxos de caixa para seus proprietários ao longo do tempo.

Vou detalhar o processo para implementar o método DCF:

1. Projeção dos fluxos de caixa futuros:

O primeiro passo na aplicação do método DCF é a projeção dos fluxos de caixa futuros que a empresa deve gerar. Estas projeções são geralmente feitas para um período de 5 a 10 anos e devem levar em conta uma série de fatores, incluindo as expectativas de crescimento da receita, as margens de lucro esperadas, o investimento de capital necessário, entre outros.

O Fluxo de Caixa Livre para a Firma (FCFF) ou Fluxo de Caixa Livre para o Acionista (FCFE) são comumente usados. O FCFF é o fluxo de caixa disponível para todos os provedores de capital (dívida e capital próprio), enquanto o FCFE é o fluxo de caixa disponível apenas para os acionistas após todos os custos, impostos e despesas de capital terem sido pagos.

2. Determinação da taxa de desconto:

A taxa de desconto é uma estimativa do risco e da rentabilidade esperada pelos investidores. Normalmente, essa taxa é a taxa de retorno exigida por um investidor para investir na empresa.

No caso do FCFF, o custo médio ponderado de capital (WACC – Weighted Average Cost of Capital) é geralmente usado como a taxa de desconto. O WACC leva em consideração o custo de todas as fontes de financiamento (dívida e capital próprio) e as pondera pela sua proporção relativa no capital total.

3. Cálculo do valor presente dos fluxos de caixa futuros:

Uma vez que as projeções de fluxo de caixa e a taxa de desconto foram determinadas, o próximo passo é calcular o valor presente dos fluxos de caixa futuros. Isso é feito aplicando a taxa de desconto aos fluxos de caixa de cada período.

4. Cálculo do valor terminal:

Além dos fluxos de caixa projetados durante o período de projeção explícita, o DCF deve levar em conta o valor da empresa além deste período. Isso é conhecido como o valor terminal. Existem várias maneiras de calcular o valor terminal, mas uma abordagem comum é usar a fórmula de crescimento perpétuo, que assume que a empresa continuará a gerar fluxos de caixa a uma taxa de crescimento constante para sempre.

5. Soma do valor presente dos fluxos de caixa e do valor terminal:

O último passo é somar o valor presente dos fluxos de caixa projetados durante o período de projeção explícita e o valor presente do valor terminal. Isso fornece uma estimativa do valor total da empresa.

É importante lembrar que a avaliação DCF é tão boa quanto as premissas em que se baseia.

Múltiplos de EBITDA

O método de avaliação por múltiplos de EBITDA é uma técnica comumente usada para estimar o valor de uma empresa. EBITDA significa “Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização” e é uma medida de desempenho operacional de uma empresa.

Vamos entender em detalhes como o método funciona:

1. Calcule o EBITDA da empresa:

O primeiro passo é calcular o EBITDA da empresa que está sendo avaliada. Isso é feito adicionando de volta à receita líquida da empresa os custos de juros, impostos, depreciação e amortização. O EBITDA é uma medida de lucro operacional que não leva em conta a estrutura de capital da empresa, a política de impostos ou os investimentos em ativos fixos.

2. Determine o múltiplo de EBITDA apropriado:

Em seguida, é preciso determinar o múltiplo de EBITDA apropriado para usar na avaliação. O múltiplo de EBITDA é baseado em comparações com empresas semelhantes no mesmo setor. Essas empresas podem ser identificadas por meio de pesquisas de mercado ou utilizando bases de dados especializadas que fornecem informações financeiras sobre empresas em diferentes setores.

Os múltiplos de EBITDA podem variar amplamente dependendo do setor e das características específicas da empresa (por exemplo, taxa de crescimento, margens de lucro, risco). Um múltiplo médio para o setor pode ser usado, ou um múltiplo específico para a empresa pode ser derivado com base em uma análise das suas características únicas.

3. Aplique o múltiplo de EBITDA:

Finalmente, o múltiplo de EBITDA é aplicado ao EBITDA da empresa para chegar a uma estimativa do valor da empresa. Por exemplo, se o EBITDA de uma empresa é de $2 milhões e o múltiplo de EBITDA apropriado é 5x, o valor estimado da empresa seria de $10 milhões.

É importante notar que a avaliação por múltiplos de EBITDA é uma técnica simplificada que não leva em conta muitos dos fatores que podem afetar o valor de uma empresa, como a estrutura de capital, os riscos futuros ou as oportunidades de crescimento. No entanto, é um método amplamente utilizado devido à sua simplicidade e à facilidade de comparação entre diferentes empresas.

Múltiplos de Receita Recorrente Mensal

O método de avaliação por múltiplos de Receita Recorrente Mensal (MRR – Monthly Recurring Revenue) é uma técnica frequentemente utilizada para estimar o valor de empresas que operam com um modelo de negócios de receita recorrente, como empresas de software como serviço (SaaS – Software as a Service), mas também é aplicado aos escritórios de contabilidade.

Aqui estão os passos detalhados deste método de avaliação:

1. Calcule a MRR da empresa:

O primeiro passo é calcular a MRR da empresa que está sendo avaliada. A MRR é a receita recorrente mensal que a empresa espera receber de seus clientes. Isso é geralmente calculado somando todas as receitas de assinaturas que a empresa recebe de seus clientes em um mês.

2. Determine o múltiplo de MRR apropriado:

Em seguida, é preciso determinar o múltiplo de MRR apropriado para usar na avaliação. O múltiplo de MRR é baseado em comparações com empresas semelhantes no mesmo setor ou com características de negócio similares.

Esses múltiplos podem ser obtidos por meio de pesquisas de mercado, bases de dados especializadas ou transações recentes de M&A no setor relevante. Os múltiplos de MRR podem variar amplamente dependendo do setor, da taxa de crescimento da receita, da margem de lucro e outros fatores de risco e oportunidades de crescimento.

3. Aplique o múltiplo de MRR:

Finalmente, o múltiplo de MRR é aplicado à MRR da empresa para chegar a uma estimativa do valor da empresa. Por exemplo, se a MRR de uma empresa é de $100.000 e o múltiplo de MRR apropriado é 10x, o valor estimado da empresa seria de $1.000.000.

Vale lembrar que este método é uma simplificação e não leva em consideração vários outros fatores que podem impactar o valor da empresa, tais como custos, lucratividade, perspectivas de crescimento futuro, entre outros. Além disso, este método é mais aplicável a empresas com um fluxo de receita recorrente estável e previsível.

Valuation além da metodologia

É verdade que, embora os métodos de valuation como Fluxo de Caixa Descontado (DCF), múltiplos de EBITDA e múltiplos de MRR forneçam uma base para a determinação do valor de uma empresa, o preço final em uma transação de M&A é muitas vezes influenciado por uma série de outros fatores. Aqui estão alguns desses fatores:

1. Condições de mercado: As condições do mercado no momento da transação podem ter um grande impacto no preço final. Por exemplo, se o mercado está em alta e há muita demanda por empresas em um determinado setor, os compradores podem estar dispostos a pagar um prêmio.

2. Sinergias: Em uma transação de M&A, as sinergias esperadas – tais como economias de custo, aumento da receita, ou aprimoramento tecnológico – podem influenciar o preço que o comprador está disposto a pagar. Se o comprador acredita que pode obter sinergias significativas ao combinar a empresa-alvo com seus próprios negócios, ele pode estar disposto a pagar um prêmio.

3. Fatores estratégicos: O comprador pode ter razões estratégicas para adquirir a empresa que vão além do seu valor intrínseco. Por exemplo, o comprador pode estar interessado em entrar em um novo mercado, adquirir uma tecnologia específica, eliminar um concorrente ou adquirir uma equipe de gestão talentosa. Estes fatores estratégicos podem influenciar o preço final.

4. Risco: O perfil de risco da empresa-alvo também pode influenciar o preço. Se a empresa tem uma grande quantidade de dívida, enfrenta riscos regulatórios significativos, ou tem outras questões que podem impactar sua rentabilidade futura, isso pode reduzir o preço que o comprador está disposto a pagar.

5. Negociação e dinâmica do deal: O preço final é também um resultado do processo de negociação entre o comprador e o vendedor. A capacidade de negociação, a disposição para fechar o negócio, a existência de outros potenciais compradores (leilão) e outros aspectos da dinâmica do negócio podem ter um grande impacto no preço final.

Portanto, enquanto os métodos de valuation fornecem um ponto de partida útil para a avaliação de uma empresa, eles são apenas uma peça do quebra-cabeça em uma transação de M&A. A determinação do preço final é um processo complexo que leva em consideração uma variedade de fatores.