91.137 Organizações contábeis estão mudando o perfil, mas não estão “fechando”

O setor contábil brasileiro representa uma faceta crítica da infraestrutura econômica e empresarial do país, oferecendo não apenas serviços essenciais de contabilidade e auditoria, mas também desempenhando um papel vital na orientação estratégica das empresas em conformidade com a legislação tributária nacional. Em meio a um ambiente econômico em constante evolução e às pressões regulatórias, a capacidade de adaptação e a resiliência das organizações contábeis são postas à prova. Neste contexto, a análise da evolução quantitativa das organizações contábeis no Brasil ao longo dos anos oferece insights valiosos sobre a dinâmica do setor, as tendências emergentes e os desafios enfrentados pelos profissionais da área.

Fontes de Dados e Metodologia

Este estudo se baseia em dados coletados de fontes renomadas, incluindo o Conselho Federal de Contabilidade, o sistema DataSebrae, a Receita Federal do Brasil, e o Mapa de Empresas do Ministério da Economia. A análise emprega uma abordagem metodológica rigorosa, comparando os registros ano a ano para identificar tendências de crescimento, retração ou estabilidade no número de entidades contábeis ativas. Este procedimento permite uma avaliação precisa da evolução do setor, fundamentada em dados oficiais e representativos do universo contábil brasileiro.

Dados do Conselho Federal de Contabilidade

Esta tabela aponta os dados ano a ano para cada uma das quatro categorias (Sociedade, Empresário, MEI e SLU) e o total de organizações contábeis:

DataSociedadeEmpresárioMEISLUTotal
2024 (até março)36.97324.9813.14526.03891.137
2023 37.04424.8883.17924.85889.969
202236.92023.9213.58219.74884.171
202144.40517.1444.1453.85969.553
202044.18115.1855.325064.691

A tabela mostra claramente o número de organizações contábeis registradas em cada categoria ao longo dos anos, permitindo uma visão do crescimento ou da retração em cada segmento. Note que, de acordo com esses dados, houve um aumento significativo na categoria SLU de 2020 para 2021, indicando uma mudança possivelmente relacionada à regulamentação ou à preferência do mercado por essa forma de organização empresarial. ​​

Sociedade Limitada Unipessoal (SLU)


A Sociedade Limitada Unipessoal (SLU) é uma modalidade de empresa que foi instituída no Brasil pela Medida Provisória nº 881/2019, posteriormente convertida na Lei nº 13.874, conhecida como Lei da Liberdade Econômica. Essa natureza jurídica permite a constituição de uma empresa com apenas um sócio, o titular, sem a necessidade de um sócio adicional, o que era um requisito anterior para as sociedades limitadas tradicionais.

Variação ano a ano

 SOCIEDADEEMPRESÁRIOMEISLUTOTAL
2024-7193-341.1801.168
2023124967-4035.1105.798
2022-7.4856.777-56315.8894.665
20212241.959-1.1803.8595.608
 Variação entre 2020 a 2024-7.2089.796-2.18026.03817.239

A tendência observada na evolução das organizações contábeis no Brasil reflete mudanças significativas na paisagem empresarial do setor. A diminuição progressiva nas sociedades tradicionais sugere um movimento de reestruturação ou de consolidação, onde estas podem estar se dissolvendo em favor de estruturas mais ágeis ou fundindo-se para formar entidades maiores, potencialmente como resposta a desafios econômicos, mudanças regulatórias ou busca por eficiência operacional.

A volatilidade na categoria MEI, que apresenta tanto incrementos quanto reduções ao longo dos anos, pode ser interpretada como um indicativo de um mercado dinâmico, onde microempreendedores respondem rapidamente a mudanças econômicas, oportunidades de mercado ou alterações na legislação que afetam a viabilidade ou atratividade desse tipo de registro empresarial.

Em contrapartida, o crescimento substancial nas categorias Empresário e SLU destaca uma clara preferência por formas de organização que conferem maior flexibilidade e controle individual. Isso pode estar associado à simplificação dos processos burocráticos, benefícios fiscais específicos, ou uma maior liberdade na gestão dos negócios. A SLU, em particular, mostra um incremento expressivo, refletindo talvez a sua relativa novidade como opção legal e as vantagens que oferece em termos de limitação de responsabilidade e estrutura empresarial simplificada.

O panorama geral, apontando para um crescimento líquido no número total de organizações contábeis, indica um setor saudável e em expansão, resiliente diante das transformações e capaz de se adaptar às novas realidades do mercado. Esta tendência de crescimento, que persiste apesar das flutuações nas categorias individuais, sugere uma demanda sustentada por serviços contábeis e uma capacidade contínua do setor de gerar novos negócios e oportunidades, refletindo tanto a vitalidade econômica quanto a importância estratégica das funções contábeis no ambiente empresarial do Brasil.

Volatilidade do MEI

A redução do contingente de Microempreendedores Individuais (MEIs) no empreendedorismo contábil pode ser atribuída a várias suposições, das quais duas se destacam no contexto atual. Vale ressaltar que desde 2018 contadores não podem mais se tornar microempreendedores individuais.

1. Redução da Pejotização

Pejotização se refere à prática de empresas contratando profissionais como pessoas jurídicas, ou seja, como MEIs, em vez de como empregados formais. Esta prática pode oferecer vantagens fiscais e reduzir encargos trabalhistas para as empresas. No entanto, tem sido alvo de debates e críticas por potencialmente limitar os direitos trabalhistas dos profissionais.

Hipótese da Redução da Pejotização: A conscientização crescente sobre os direitos trabalhistas e as possíveis desvantagens de ser um MEI em termos de benefícios e segurança no emprego pode estar levando os profissionais a preferirem vínculos empregatícios formais. Além disso, ações regulatórias e fiscalizações mais estritas por parte do governo podem estar desencorajando a pejotização, levando a uma redução no número de profissionais optando por se registrar como MEIs.

2. Aquecimento do Mercado de Trabalho na Área Contábil

O setor contábil é vital para a economia, e o crescimento econômico gera maior demanda por serviços contábeis. À medida que as empresas crescem e as regulamentações fiscais e contábeis se tornam mais complexas, a necessidade de profissionais contábeis qualificados aumenta.

Hipótese do Aquecimento do Mercado de Trabalho: Um mercado de trabalho mais aquecido na área contábil pode estar oferecendo mais oportunidades de emprego formal e posições mais atrativas para contadores, levando a uma preferência por vínculos empregatícios diretos em detrimento da atuação como MEI. Este cenário é benéfico para profissionais em busca de estabilidade, benefícios e crescimento na carreira, resultando em uma redução no número de profissionais que optam por atuar como MEIs.

Essas hipóteses refletem mudanças importantes no setor contábil e na maneira como os profissionais estão se posicionando no mercado de trabalho. Ambas têm implicações significativas para o de carreiras e para a estruturação de escritórios e empresas de contabilidade.

Mapa de Empresas do Ministério da Economia em 2023

Comparando os dados do Mapa de Empresas do Ministério da Economia em 2023, que indica a existência de 84.033 empresas ativas no Brasil com o CNAE de “atividades de contabilidade”, com os dados do Conselho Federal de Contabilidade do mesmo período (31/12/2022), que reporta 84.171 organizações contábeis com registros ativos, observamos uma diferença mínima de 138 organizações.

Essa discrepância relativamente pequena entre os dois conjuntos de dados pode ser atribuída a vários fatores:

  • Tempo de Atualização: Pode haver um descompasso no tempo em que os dados são coletados, processados e atualizados entre as duas instituições. Mesmo uma pequena diferença no timing pode resultar em variações nos números reportados.
  • Processo de Registro e Baixa: Empresas podem estar em diferentes estágios de registro ou baixa no período entre as atualizações das bases de dados, influenciando o número total de empresas ativas reportadas.onslu
  • Informalidade de algumas organizações que não mantiveram seu resgistro junto ao CRC.

Conclusão

A análise das variações no número de organizações contábeis ativas no Brasil, ao longo dos anos recentes, evidencia uma evolução e adaptação do setor a um cenário econômico e regulatório em constante transformação. A tendência de diminuição nas sociedades tradicionais sinaliza um movimento estratégico de reestruturação, onde a consolidação e a busca por eficiência operacional são respostas adaptativas aos desafios impostos pelo mercado e pelo ambiente regulatório.

A categoria MEI, oscilando entre crescimento e redução, reflete a natureza volátil do mercado e a prontidão dos microempreendedores em ajustar suas estratégias empresariais em face de mudanças legislativas e oportunidades econômicas emergentes. O comportamento dessa categoria sugere uma elasticidade que é, em parte, influenciada pela agilidade de adaptação que os MEIs possuem diante de um ambiente de negócios em rápida evolução.

Por outro lado, o aumento expressivo nas categorias Empresário e SLU aponta para uma preferência crescente por estruturas empresariais que proporcionam flexibilidade, controle individual e simplificação administrativa. A ascensão da SLU, em particular, reflete uma mudança paradigmática na escolha das formas jurídicas, onde a limitação de responsabilidade e a simplificação dos processos têm grande apelo. Este cenário é acentuado pela novidade legislativa e pelas vantagens competitivas que tais estruturas oferecem, especialmente em um contexto onde a agilidade e a capacidade de resposta rápida são ativos valiosos.

O panorama quantitativo geral, demonstrando um aumento líquido no total de organizações contábeis, sublinha um setor robusto e expansivo, que demonstra resiliência e flexibilidade diante das mudanças de mercado. Este crescimento, mantido apesar das variações nas categorias, sublinha uma demanda consistente por serviços contábeis e indica a capacidade do setor de contabilidade de se reinventar e de capturar novas oportunidades de negócio, o que é essencial para a sustentabilidade econômica e a competitividade no contexto empresarial brasileiro.

O alinhamento próximo entre os dados do Mapa de Empresas do Ministério da Economia e do Conselho Federal de Contabilidade reforça a validade dessas observações e destaca o alinhamento metodológico entre as instituições na contagem e na atualização de registros empresariais. A pequena discrepância observada entre os conjuntos de dados reitera a complexidade do ambiente empresarial, incluindo fatores como a informalidade e o descompasso nos ciclos de atualização de dados, que são desafios intrínsecos ao monitoramento de um setor tão dinâmico.

Em suma, o setor contábil brasileiro não só demonstra vitalidade e adaptabilidade, mas também uma predisposição para a inovação e para a aderência a modelos empresariais que maximizem a eficácia operacional em um cenário econômico marcado pela incerteza e pela mudança.

Referências


Conselho Federal de Contabilidade. Dados sobre as empresas de contabilidade no Brasil. Disponível em: https://www.cfc.org.br/. Acesso em: 17 mar. 2024.

Ministério da Economia. Mapa de Empresas. Disponível em: https://www.gov.br/empresas-e-negocios/pt-br/mapa-de-empresas. Acesso em: 17 mar. 2024.

Receita Federal do Brasil. Base de dados do Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ). Disponível em: https://www.gov.br/receitafederal/pt-br. Acesso em: 17 mar. 2024.

SEBRAE. DataSebrae: Indicadores. Disponível em: https://datasebraeindicadores.sebrae.com.br/resources/sites/data-sebrae/data-sebrae.html#/Empresas. Acesso em: 17 mar. 2024.

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